Conto de Thiago Lia Fook
Quanto ao destino da revolução que eu planejara, os fatos desviaram-se das diretrizes traçadas. Se o movimento tivera um idealizador, ele terminou encontrando um líder não planejado. Enquanto a diretora ocupava-se de retirar o general deposto do pátio e levá-lo para casa, os professores pareciam mais curiosos para ver o desenlace daquele evento inusitado, que ansiosos por restaurar qualquer tipo de disciplina. Já eu, à espera do momento mais oportuno de entrar em cena, não percebi que a cena contara com outro oportunista desde o primeiro minuto.
— Amigos! Amigos! – bradei. Ouçam! Ouçam! Não precisamos mais de um general inútil! Mas isso não significa que não precisamos mais de um líder! Precisamos de um líder útil!
O silêncio se fez. Prossegui:
— Se o general desceu, que suba o novo general!
— E quem seria esse novo general?! – perguntou Gabinho.
— O coronel! – gritou uma voz não identificada, seguindo-lhe o clamor de todo o pátio:
— Viva o coronel! Viva o coronel! Agora o general! Agora o general!
Foi então que minha sorte começou a mudar. Gabinho subiu os degraus da biblioteca e lançou os colegas contra mim:
— Mas o coronel não era o vice do general?!
— E o que isso tem a ver? – alguém indagou.
— Se o general não fez nada, o que fez o coronel?! Nada vezes nada! São todos iguais!
Ainda tentei salvar minha patente:
— Amigos! Amigos! Não ouçam o que ele diz! Não fiz nada porque ele, o general, não permitia!
— E o que você faria se ele permitisse? – alguém perguntou.
— Eu… bem…
— Ouviram?! Nada! – sentenciou Gabinho.
E uma onda de vaias banhou o ambiente. Era estonteante. E selou o insucesso dos meus planos de poder. Tão ingênuos os planos, quanto inútil aquele poder. Mesmo assim, o poder! Outro ovo atravessou as cabeças e acertou em cheio, daquela vez, o meu rosto. Naquele instante, Gabinho bradou:
— Viva a democracia!
— Viva! – vibrou a escola em peso.
— Abaixo as patentes!
— Abaixo as patentes! Abaixo as patentes! Abaixo as patentes! Abaixo as patentes! – e, repetindo o refrão revolucionário, aos berros, a multidão empurrou-me para fora do pátio enquanto erguia Gabinho no ar, aclamando-o como seu novo líder.
Fui socorrido por um dos professores, enquanto os demais tentavam conter o alunado, temerosos de que a revolução se transformasse em uma omelete. Levado para casa, só retornei à escola uma semana depois, para fazer as provas conclusivas do bimestre. Soube por Alan que, no dia seguinte ao tumulto, Gabinho organizara eleições para a nova liderança e os colegas o haviam elegido prefeito. Também se havia criado uma Câmara de Vereadores, com três membros, e o próprio Alan fora escolhido seu presidente. Enfim, os alunos estavam satisfeitos com a democracia, embora mal soubessem do que se tratava. O ex-general e eu voltamos a nos encontrar durante as provas. Não nos cumprimentamos; porém, no último dia de aula, ele me procurou.
— Jaquinho, vou sair da escola. No próximo semestre, vou estudar nas Damas. Meus pais conseguiram uma vaga e eu tenho que aproveitar a chance, pensando no vestibular. – era a mesma voz fleumática de sempre.
Um, dois, três segundos de silêncio e:
— Vamos lá. Deixe de bobagem. Não tenho ressentimentos. Afinal, aquela estória das patentes era uma piada sem sentido.
Sorri. Sorrimos.
— Agora, a piada é outra… – emendei.
— E nós estamos crescendo. Para tratar de coisas mais sérias. – ele completou.
Trocamos um aperto de mão, depois um abraço e nunca mais voltamos a nos ver.





Apesar de não gostar da fragmentação dos textos. Percebo que thiago vai bem não só com a poesia, mas também na prosa.
E olhe que isso não é tão fácil .
“mais oportuno de entrar em cena, não percebi que a cena contara” – eu tiraria uma das “cenas” de cena (vicio editorial). rs.
Ao conto:
Achei um conto muito bonito e em escrito. Engraçado q mtas pessoas ao se referirem a influencia de Machado em um texto remetem a intrusao do narrador nos acontecimentos. Aqui a influencia persiste, mas pelo outro viés, o da representação da esfaçatez de classes em que vivemos. Há uma clara alusão à passagem à democracia, que por causa do título pode ser transpostas a muitos contextos, afinal, agora de cabeça dois eventos importantes da época: a queda do muro de Berlim e a eleição de Collor, o dito salvador da pátria aqui no Brasil. Interessante também a representação do poder que tem a imprensa. Enfim, é um conto que, como toda boa narrativa, da mto pano pra manga. Valeu a pena a espera.
Grande abraço!
Amigos, agradeço a leitura generosa.
Wander, quando repeti ‘cena’, senti que o efeito era bom. Agora, relendo, já não sinto isso. Vou alterar. Quanto ao restante, tentei somar memória e invenção, aproveitando o simbolismo da data e, de fato, alfinetando a imprensa em uma democracia de massa. Valeu!
Um conto à la Machado. Percebo a verve irônica e a estrutura fina e carregada de sutilezas com que foi construída a narrativa. Reconheço, porém, que tive dificuldades para ler o conto na íntegra. Li-o a partir deste trecho de agora e depois é que fui relembrando os outros. Há contos que são, mesmo, para livros – e não para a internet, por melhor que seja este mecanismo de divulgação. No mais, como já havia dito, a ficção contemporânea vem sendo carregada de engenhismos estruturais do texto, e com isso utilizam-se vários recursos visuais e semióticos (desenhos, passagens entrecortadas, linguagem internáutica etc). Do ponto de vista desta tendência, modernidade ou uso de recursos, acredito eu (sobretudo em meus livros) e o Tiago (neste conto, especificamente) ainda estarmos perspegando muito ao largo. O conto redondo, bem escrito, fino e sutil que Machado já desenvolvia em uma certa época pode não ter espaço nos dias de hoje, mas também pode ser uma forma de resistência. Tudo bem se for pelas mãos do próprio Machado, mas pelas mãos da geração-Internet às vezes fica estranho. Não imagino, entretanto, esse texto sendo escrito por outras mãos, em outro estilo e de modo que fique melhor do que realmente está
Gostei do resultado. Ficou com aquela ironia que demoramos a perceber e, quando percebida, nos causa o arrepio estético inevitável.
Joao, Machado é atualíssimo. Outra: pelo menos do q tenho lido não vjo incursões tão radicais (até esperava mais nesse aspecto). Obvio q isso não tira nenhumm mérito do conto de Thiago. No fim, isso é pura opção estilística.
Também me aperreia mesmo o fato do conto partido; seria melhor postar tudo de uma vez, qm tiver entusiasmo q leia, caso contrário, paciência. Repare q aspessoas q comentaram a primeira parte não chegaram ao final da leitura, o q pra mim tem a ver com essa mutilada.