Por Thiago Lia Fook
Naquele ano, seria diferente. Chegaria mais cedo ao primeiro dia de aula, receberia os colegas com um caloroso abraço e acertaria os termos do acordo. Ninguém recusaria, todos sempre diziam “sim” ao primeiro que se apresentasse como líder. Além disso, o principal apoio já havia sido conquistado duas semanas antes, em Camboinha. Quando ele aparecesse (pontualidade não era seu forte), a causa já estaria ganha; portanto, só lhe restaria cumprimentar o novo chefe e aceitar o consolo que lhe fora reservado. Pensando nisso, dormi o sono do macho alfa.
Quando amanheceu:
— Quem diria, hein?! De pé, logo cedo, para o primeiro dia de aula!
— Pai, será que a gente pode sair mais cedo?
— E ainda por cima apressado?!
— Por favor, pai!
— Quem é a garota?
— Sem perguntas, pai! Será que a gente pode ir agora?!
A escola era pequena, tinha poucos alunos. Quatro salas de aula, o pátio e a biblioteca, além da secretaria. O método de ensino era tradicionalíssimo, por isso os pais a procuravam. Entrava-se pela garagem da casa da diretora, atravessava-se um corredor florido e dava-se no pátio. Cheguei até ali e suspirei: eu era o primeiro. Corri até a terceira sala, onde li meu nome na lista pregada na porta, e acomodei meus pertences. Enfim, seria só esperar os outros chegarem e… Mas, o quê?! Saí da sala e dei de cara com ele!
— Bom dia, Jaquinho. Primeiro dia de aula e você já por aqui? Como foi de férias?
Ele sorriu, com fleuma. Permaneci calado, confuso. Ele continuou caminhando até a quarta sala, onde conferiu seu nome na lista e entrou. Senti-me desnorteado. Por que tão cedo? Ele sempre se atrasava. Teria desconfiado de algo? Mas eu só havia falado com… Ah, aquele idiota! Só podia ter sido ele! Ficamos uns dez ou quinze minutos na mesma: eu no pátio, trêmulo; ele na sala, em silêncio. Então, o portão se abriu e Alan apareceu:
— Seu idiota! – pulei em cima dele. Abriu o bico, não foi?!
O outro se limitou a proteger a cabeça com os braços.
— O que você disse a ele?! Vamos, fale!
— Falar o quê, Jaquinho? – ouvi a voz confiante dele soando atrás de mim. Por que tanta agressividade? – dizendo isso, ele se pôs entre mim e Alan e o abraçou. Deixe Alanzinho em paz.
Encaramo-nos profundamente: eu, com fúria; ele, com serenidade. O outro não erguia os olhos do chão. Os demais alunos começaram a chegar e todos paravam para falar com ele, sobretudo as meninas, que lhe ofereciam as bochechas rosadas para um beijo estalado. Depois, falavam comigo, mas não me ofereciam sequer um aperto de mão. Como eu tinha sido ingênuo! Acertar com um covarde como Alan os detalhes de um golpe contra seu líder! Àquela altura estava tudo esclarecido: Alan entregara o plano, ele se antecipara aos fatos e eu assistia ao seu triunfo.
— Ah, Jaquinho, quase esqueci. Esse vai ser meu último ano na escola. Então, eu continuo general e você, coronel. No próximo ano, será sua vez de assumir o comando.
Havia dois anos, criáramos aquelas patentes. Sabíamos pelos amigos que estudavam em escolas maiores que lá os alunos elegiam representantes de classe. Mas a idéia atraía um ou outro, até que certo dia ele propôs o exército. Naquele tempo, o vocabulário militar ainda se insinuava. No começo, poucos se interessaram. Alan e eu fomos os primeiros a aderir e ganhamos recompensa: Alan seria tenente-coronel e eu, coronel. O generalato ficou para ele. Mas tínhamos um acordo: no ano seguinte, nós dois trocaríamos de patente. Alan não era ambicioso e aceitou que a sua fosse fixa. No ano seguinte, ele veio com um papo de que era mais velho e tinha mais apoio, acenou com a possibilidade de sair da escola no fim do semestre e eu terminei concordando em adiar minha promoção. Mas ele ficou na escola. E eu entrei pelo cano. Então, veio a idéia do golpe, cujo insucesso ficou selado quando a diretora apareceu no pátio para dar as boas vindas e iniciar o novo ano letivo.
No intervalo, Alan veio falar comigo:
— Não fique com raiva… Você me procurou e eu não sei dizer “não”… Mas ele é meu amigo… Eu tinha que dizer “sim”… Você sabe…
— Sei! Sei! Idiota fui eu! Pensei que podia contar com um frouxo como você!
— Não fique com raiva… Você sabe… Dessa vez, ele vai sair da escola… É verdade… No próximo ano, você vai ser o general…
Deixei Alan falando sozinho e voltei para a sala. Eu já havia esperado muito e não poderia mais aceitar que ele vencesse novamente. Se aquele seria de fato seu último ano na escola, teria que sofrer pelo menos uma derrota. Mas o golpe não funcionaria. Era abrupto. Para vencer, eu teria que convencer… Através de um meio mais eficaz… Teria que ganhar adesões… Mas como?… Teria que encontrar uma isca… Mas qual?…
Continua na próxima postagem do autor…





Tenho dificuldade com leituras fragmentadas, principalmente pelo fato de que a segunda parte vai demorar a sair. No entanto, fiquei curioso para saber o que vai acontecer.
Nem li. Só leio conto completo (sindrome de E. A. Poe). Leva a mal não Thiago. rsrsrsrs.
Vou aguardar as outras partes, aí sim mando ver. ^^
Besteira, boa parte dos romances de Machado foram escritos em Folhetim, fragmentados. Vai dizer que vocês iria acumular dezenas de jornais, para depois ir catando os capitulos para ler.
Amigos, agradeço o esforço de leitura fragmentada.
Helber, quis testar justamente se nossos hábitos hipermodernos, instantâneos ainda admitem a publicação em folhetim. Vamos ver…
Hélber, você é acompanhador de seriados, tem mais jeito pra essas coisas. Eu, particularmente, prefiro juntar 5, e ler, mais 5, e ler.
Fi, vc disse ROMANCES. Como não é esse o caso, morreu a conversa. rs.
O alienista tá no meu livro de contos de Machado.
É, Felix, Os Mutantes – Caminhos do Coração e Malhação me fizeram enxergar o mundo diferente.
De pronto, parabenizo o colega Thiago pela hábil construção narrativa do conto. De um gole só cheguei até o final, mesmo hesitando lê-lo separado por partes. De qualquer maneira, o conto deixou uma ponta com nó para a próxima parte. Quero somente destacar sua habilidade, técnica e sensibilidade para o gênero conto. Você soube conduzir a narrativa e espero que, para a próxima parte, tenhamos um conto realmente magistral, tal qual eu o espero.
Abraços.
Obrigado pela leitura, João.
Espero que as duas partes complementares não o decepcionem…
[...] (para ler a parte I, clique aqui) [...]
[...] (para ler a parte I, clique aqui) [...]
[...] Deixar um comentário Ir para os comentários Conto de Thiago Lia Fook Confira também parte 1 e parte 2! Quanto ao destino da revolução que eu planejara, os fatos desviaram-se das diretrizes [...]