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A casa é minha

conto de Romarta Ferreira

 

 

Eliana colocou a chave na porta, abriu, entrou, avistou o ex-marido na sala assistindo TV e tomou um susto.

­─ Você está pelado?!

─ Claro!

─ Como assim: claro?

─ Claro que estou pelado.

─ Isto, eu vi. Mas a casa também é minha, você não pode andar por aqui, despido.

─ Vai dizer que nunca me viu pelado?

─ Eu chamo a polícia!

─ E vai dizer o quê? Que eu estou em minha casa sem roupa por causa do calor?

─ Espere aí, para onde você pensa que vai?

─ Na cozinha fazer um lanche.

─ Você já sentou sem roupa no meu sofá e agora quer abrir minha geladeira, mexer na minha cozinha… Assim? Nessas condições?

─ E qual o problema?

─ Está me incomodando!

─ Besteira sua.

Eliana ficou furiosa, mas o ex-marido não estava nem aí, nem sequer hesitou e livremente foi até a cozinha preparar algo para comer. Preparou, puxou a cadeira, sentou-se à mesa. Então, avistou a ex-esposa atravessando o corredor e quase teve um surto.

─ Você está pelada?!

O sarau CAIXA BAIXA é hoje. Começa às 7 da noite. No Bar do Elvis. Castelo Branco. João Pessoa. PB

Insensatez

poema de Mirtes Waleska

 

 

Meus sonhos são de bolso
E cabem numa estante qualquer,
Onde a minha loucura se concretiza,
E a minha poesia é toda insensatez.

conto de Letícia Palmeira

Há quinze dias recebi a correspondência de Linski. Breves palavras preenchiam o pequeno pedaço de papel. Escreveu como se estivesse com pressa. Dizia: “Chegarei ao meio-dia. Teremos tempo”. Minhas mãos tremiam enquanto eu observava aquelas palavrinhas que, por muitos dias, tentei analisar. O manuscrito se tornara gasto de tanto que eu o abria e o fechava. Cheguei a colocá-lo na porta da geladeira preso por quatro imãs em forma de maçã. E, sempre que eu passava pela cozinha, eu lia e relia e parecia estar ouvindo a voz de Linski. Eu repetia em voz alta o que ele havia escrito. Ah, como me senti imponente. Então chovia e era sol. O dia estava maravilhosamente combinativo ao meu estado de espírito. Desde que recebera a correspondência, planejei todo o trajeto deste dia que é hoje. Mudei os móveis de lugar. Comprei livros. Arrumei a velha escrivaninha onde Linski costumava passar horas deleitando-se em palavras. Era meu triunfo vê-lo sentado debruçado sobre seus papéis. Era seu estado criativo, costumava dizer. “Há horas em que preciso ficar sozinho”. Ele me dizia todas as coisas em seu tom imperativo. Eu o servia de chá e café. Fazia de tudo para que nada perturbasse o silêncio de Linski. E agora ele está de volta. Quantas horas irá ficar? Suspiro. Meu êxtase é imenso e sinto-me invencível. Posso sorrir. A bem da verdade, desde que recebi a correspondência, um alardeante sorriso movimenta minha face. Decidi não esconder minha alegria. Afinal, chegara o tempo de rever Linski e eu precisava celebrar sua companhia. Era como se ele já estivesse aqui. Há quinze dias. Desde que Linski mandou-me dizer que estaria comigo, sinto sua presença. Ele está nos quadros, nas fotografias, em seu armário por tempos vazio. Ele ocupa o quarto, a cama e os lençóis exalam o aroma de Linski. Ele está mais presente que nunca. E hoje conversaremos. Ensaiei todo meu discurso. Preciso lembrar que devo agir de forma gentil e sorrir discretamente. Linski não suporta comportamentos estrondosos. Mostrarei as mudanças que fiz na casa, a tapeçaria, e não falarei a respeito de Vilma. Nada irei alarmar. Linski provavelmente irá me contar de sua vida e eu ouvirei com distinta atenção. Não usarei interjeições ou gafes exclamativas. Sequer demonstrarei surpresa. Meu porte será de um ligeiro interesse como se eu houvesse mudado meu hábito de idolatria. Estarei fervendo por dentro. Tenho certeza disso. Abortarei alegrias e atitudes furtivas por revê-lo. Poderia abraçá-lo ao invés de manter o recato que silencia prisioneiros. Eu poderia fazer soarem trombetas angelicais à chegada de deus. Tomaríamos vinho tinto e logo estaríamos rindo espalhafatosamente, Linski. Ah, como seria bom retê-lo desta forma. Mas devo exercer neutralidade. Fingirei não ter vida. E, agora que aguardo a chegada de Linski, algo toma o lugar de minha atitude centrada. Por que não posso celebrar em uivos a chegada de Linski? Por que não posso deixar a louca rebeldia dos contentes tomar conta de mim? Por que não me desmantelar em efusivo estado de alforria? Por que não o afago de saudade? Por que devo comportar-me em retidão? Linski me desalinhou de meus desejos. Ele me entortou a vida e agora retorna grandioso esperando que eu finja discernimento justo quando me irradia a ansiosa liberdade de um largo sorriso. Não. Definitivamente não. Ele não fará isso comigo. Por anos eu caminhei na ponta dos pés para não incomodar o exílio de Linski. Agora que o tempo engoliu meu obrigatório comportamento de lealdade, por que devo me privar de viver o que sinto? Quem você pensa que é, Linski? Deus? Imperador? Um ditador em supremacia? A cólera me invade e rasgo em filetes de indignidade a correspondência de Linski. Não serei mais o bicho coagido. Vê? Liberei de mim as amarras dos acorrentados anos às suas ordens. Sou outra pessoa, Linski. Não o quero em minha casa. Eu preciso sorrir.

E, ao meio dia, a campainha anuncia a chegada de Linski. Ninguém o recebe à porta. Ele não entende. Deveria ser recebido. Insiste algumas vezes mais e, contido em seu comedido modo perfeito, Linski retorna à rua e volta ao esquecimento. Ergo uma taça de vinho, brindo meus arroubos de euforia e não me arrependo por não tê-lo visto. Linski não faz mais sentido.

Crônica Carioca

Na estrada com João Matias

 

            (Abre-se a primeira janela despertada)

            Não buscarei nas praias o distante sonho clichê das multidões. Antes prefiro a solidão dos prédios, na quietude caiada no tempo, onde o flanêur deposita suas fiéis horas de distração. Meu amigo que procura por Copacabana ou Ipanema, Flamengo ou Botafogo, Cristo ou Pão de Açúcar: bom passeio. Eu prefiro a cinelândia. Apesar de o “motivo da viagem”, como folhetim de aeroporto, não ter sido marcado com o “x” sobre “lazer”, não vim e não viria para cá com o intento de ver praias. Você sabe, tudo isso de praias, da natureza do arpoador (feita para maconheiro, diga-se de passagem), dos pontos vibrantes em qualquer calendário turístico, esta coisa maldita do google images, este frisson vaporoso quando se digita “Rio de Janeiro”.

            (Abre-se outra, outra mais, enfim dezenas)

            O lugar do bom andarilho é o asfalto: você se realiza à exaustão das cãimbras com o centro do Rio. Fedendo a mijo, que beleza. Um passeio pela praça tiradentes: a graça monumental dos prédios  que se der um vento mais forte caem, o rebolado das cariocas já patrimônio nacional, as ruas enviesadas que dão em galerias e museus ora escondidos e (opa!) reencontrados. Os sebos escondidos são os maiores achados. Mas você tropeça na esquina da Luis Vaz de Camões e encontra o Centro de Artes Hélio Oiticica. Os nomes brilham: Camões, Oiticica, Gonçalves Dias, João Caetano, Nelson Rodrigues. Eles falam: esta foi a rua onde morou Machado, aquela em que residiu Lima. O Rio mais vive onde os mortos estão. Ironicamente, bebo num bar cujo nome da praça é João Pessoa.

            (Dos prédios rompem os janelões, apenas)

            Mas, e os monumentos a Drummond e Caymmi em, ok, Copa? Não sou do tipo que fala às estátuas. Uma palavra vale mais do que mil imagens. Essa coisa das praias o que salvam: as mulheres. Elas superam a beleza das curvas dos Arcos (para bom flanêur, meia palavra basta): ponto para as praias. E, embora não religioso, torno-me um sincero devoto, como que ajoelhado nos andaimes de igreja por curto tempo, para a catedral de são sebastião, candelária, nossa senhora do carmo. Troco mesmo uma cachaçada na sexta à noite por passar o dia no teatro. No Catete ou na Glória. Mas eu abro uma exceção pros centros próximos à candelária. Eu troco a sexta por eles, e troco todas as praias por uma semana inteira ao fedor das ruas.

            Sair dos prédios? No desavisado passeio público, só para encontrar seu Machado e dona Carolina. Marido e mulher, mãos dadas, cumprimentando com o chapéu à guisa dos punhos. Não saberia, ainda assim, ressaltar o que me remete ao Rio para o próprio. O busto de Raimundo Correa nos olha indagativo. Ele, Machado, também tinha suas próprias memórias. Talvez as memórias não vividas de outros países, solapando dia a dia uma ficção inconfessável sobre as ruas não percorridas de Saint-German-des-Prés. Algo Midnight in Paris, Woody Allen, assim como quem não estivesse próximo ao Cine Odeon. Assim como quem espera bêbado à meia noite uma charrete, sim charrete, chegar aos gritos com Olavo Bilac, João do Rio, Raimundo Correa.

            Jamais senão entre os prédios se poderia ouvir falar dos assassinatos e traições na Glória, Centro e Botafogo que ensejou as peças do gigante Nelson, da Bebel que a cidade comeu, na inspiração de Loyola Brandão, ou do policial e noir mês de agosto, nas coleiras do cão sem dono, mesmo sabendo que o dono é Rubem Fonseca. Falar das crônicas de Paulo Mendes Campos, Drummond e Maneco Bandeira seria covardia. Mas aí você fala de Garota de Ipanema, da Copacabana de Belchior, da lírica litorânea dos Caetanos. A poesia te alegra e basta? Não conheço romances ambientados em praia. Lá é onde a vida acontece preguiçosa. Bêbada, distante: lugar onde se descansa, lugar onde se finge, lugar onde se vai. Um lugar de onde se volta.

            Eu gosto do lugar onde se vive. Fiel ao strip-tease dos prédios, no cômodo conjugal do asfalto.

            (Raia sanguínea e fresca a madrugada)*

* Primeiro quarteto do soneto As Pombas, do Raimundo Correia, livremente adaptado.

Poesia de gênio

poemas de Joedson Adriano

 

EXPLICAÇÃO

 

ah minha amada me não tenhas inveja

por não possuíres o meu sagrado Pênis

nem tu por pensá-lo do tamanho do tênis

oh meu não querido quem quer que ímpio sejas

 

sabei que o melhor é o transmissor de genes

se somos somente animais na peleja

a fêmea é a mãe pescoço da igreja

o macho é o pai mesmo a pau tênue

 

além do mais moça a qualquer momento

podes recebê-Lo do início dos pentelhos

ao fim pra mossa o unguento bento

 

e o teu ruim rapaz eu digo sem zelo

meu ferino Falo teu ânus adentro

mas o pior é o medo que tenho de perdê-Lo

 

 

CURVILÍNEOS

 

1

 

se um deus inventou a boleada bunda

de certo não foi quem a nomeou de nádega

esta um ânus doce de estagnada água

aquela salgadas oceânicas ondas

 

orixá quem fez o cu e seu olho de pregas

pois a bunda mais bela uma negra banta

de curvas perfeitas sob o manto da santa

que leva ao paraíso sem a reta que nos draga

 

abundante e macia qual se feita fosse

apenas pro filho do homem encostar

a cabeça abraçado aos dois belos montes

 

quase tão importantes pro corpo procriar

quanto o de vênus porque mais atraente

pro deleite da mente que não cansa de olhar

 

2

 

retidão reza a ciência só em nós tem berço

o cosmo é curvo por sua natureza

pra economizar força e esbanjar beleza

esferas e elipses do átomo ao universo

 

até a vagina de triangular realeza

não tem uma ponta e os pontos de seu terço

são unos por curvas nada é sobejo

na vulva que apraz toda a macheza

 

mas a perfeição de toda a criação

mais que qualquer arte do Euro facundo

ou tecnologia de ponta do abatido Japão

 

se acha na bunda dupla de meios-mundo

prum inteiro humano de integração

que um dia será globo todamente bundo

 

 

 

DURA LEX SED LEX

 

sempre me pautei por este lindo lema

o qual aprendi ainda bem novo

sem pelos no púbis nem gema no ovo

com a voz aguda e a pica pequena

 

este ensinamento milenar do povo

que mais que doutrina é duro dilema

repassado pelos mais velhos sem pena

sem cuspe nem culpa que agora vos trovo

 

o certo é o coito do cotidiano

botar na buceta é bom mas injusto

visto a vagina aberta ser ao humano

 

justo é o cu contudo incerto

se vara só às vezes posto ser o ânus

ainda um tabu se há alguém por perto

 

Na estrada com  Thiago Lia Fook

Terça-feira, 6h. A campainha arranca-me do ronco para a ruga: duas velhinhas enganadas de quarto desculpam-se. Descerro a cortina a fim de verificar a fama de Copacabana e, mal começo a perscrutar a praia, sinto um rasgão no abdome. Confirmo tardiamente que o sanduíche da véspera não era recomendável. Tomo o café da manhã frugal que os intestinos suplicam e ganho a Xavier da Silveira. Meu primeiro contato com o século XIX vem da latrina: o Rio de Janeiro é fedorento e, a qualquer instante, gotas de sabe-se-lá-que-líquido pingam dos edifícios sobre as cabeças dos passantes. Mergulho no Cantagalo e volto à tona na Presidente Vargas. Os fundos da Candelária convidam-me à dianteira, onde leio a piedosa mensagem de Leão XIII: 100 dias de indulgência a quem beijar a cruz cravada na coluna e rezar um padre-nosso. Penso em recitar minha profanoração e acrescer à conta um pecado em vez do perdão papal. Outro rasgão no abdome. Contenho a língua e beijolho outra cruz: a nave de igreja é esplendorosa…

Sigo para o Paço Imperial. A República tentou apagar de tal forma a memória da Monarquia que me surpreende o fato de o prédio ter permanecido em pé. O largo tornou-se a Praça XV de Novembro; a antiga Câmara dos Deputados, o Palácio Tiradentes. Caminho até o chafariz colonial e contemplo, em êxtase absoluto, algumas cenas da História do Brasil. Vejo D. João ser aclamado Rei de Portugal, Brasil e Algarves… o pequeno Irineu desembarcar na capital que o faria visconde e visionário… D. Pedro I ser coroado Imperador… D. Pedro II marchar para a sagração na Sé… a Princesa Isabel proclamar da sacada que a escravidão fora abolida… Por dentro do Paço, pequenas placas informam o que restou do Império. Os aposentos do monarca servem de passagem, a sala onde se assinou a Lei Áurea abriga uma exposição de pintura abstrata, o salão do trono acomoda um instrutivo histórico das embalagens de refrigerante à base de Cola.

Outro rasgão. No banheiro dos súditos, não há descarga de ouro, mas se desfruta de bela vista da velha Câmara dos Deputados. Deixo o Paço e atravesso a rua para visitar a Antiga Sé. A pequena nave da igreja resume o tempo que venho ver: do ouro das paredes, ainda pinga o suor dos escravos das minas e da Corte… do coro, ainda ecoa o Te Deum em honra do Imperador recém-sagrado diante do altar… nos bancos, liberais e conservadores tecem os fios do manto que vestirá D. Pedro II e abrigará a ambos os partidos em conciliação… e o povo, assistimos aos ritos deslumbradamente. Mas, quem vejo?! Um vulto de barbas longas cruza a calçada em trajes antigos, equilibrando no rosto um pince-nez curvo. Atinjo a rua a tempo de vê-lo dobrar à esquerda, na altura da Ouvidor.

Enveredo pela travessa, mas já o perco de vista. A livraria! Procuro alguém que possa informar-me a localização do prédio. O garçom ri. O consultor da Saraiva fica desconcertado. O dono da Folha Seca acolhe-me com dados precisos: a Garnier ficava do outro lado, depois da Rio Branco e em frente ao ponto da José Olympio, mas ambos os prédios já deram vez a outros, modernos. Desabo na direção indicada até esbarrar no Largo de São Francisco de Paula. Consulto minhas notas. O periódico de Fleiuss era editado ali. Aproximo-me de um velhinho em quase-cochilo: em qual deles funcionava a Semana Ilustrada? A resposta é curta e seca: do prédio, não sei nada, mas o barbudo acabou de enveredar pela Luís de Camões. Em dois ou três pulos, vejo-me diante do Gabinete Português. Subo os degraus e abordo o porteiro: você, meu jovem, é o primeiro a entrar aqui nas últimas duas horas!

Retomo a rua e avanço até a Avenida Passos. Avisto o homem deixando a Igreja de Nossa Senhora de Lampadosa e tomando a direção da Praça Tiradentes. Prossigo no seu encalço. A tipografia de Paula Brito! A estátua eqüestre de D. Pedro I desafia as chuvas e a República. Dobro à direita e, sem sinal de quem persigo, estanco diante do número 64. O sobrado oitocentista oferece a loja térrea ao presente e a escada íngreme ao passado. Escalo-a. No primeiro andar, caio em silêncio. Vejo os companheiros da Sociedade Petalógica reunidos e os escuto lançando um chiste contra o visitante do futuro. Ouço uma voz educada e simpática que me devolve ao tempo dos pés: Posso ajudar? Inflamo o peito e anuncio à mocinha que ela está trabalhando no mesmo local onde Machado de Assis começou sua vida profissional e literária. Que legal! Quem foi esse cara?

Pela janela, vejo o vulto cruzar a praça em direção à Sete de Setembro. Despeço-me e ganho a rua às pressas. Disfarçado de mármore branco, o velho Teatro de São Pedro faz ouvidos de mercador ao meu pedido de informações. Quatro esquinas depois, consulto as notas e entro à direita na Rua da Quitanda. Diante do número 6, procuro algum vestígio dos irmãos Melo e seus saraus, mas tudo o que recolho é o cheiro de galeto assado e cerveja gelada. Sinto-me nauseado. Dois passos para trás, tropeço na Rua da Assembléia. Victor Frond e o Brasil Pitoresco! Cruzo a rua de um largo a outro, mas não escuto sequer um eco de língua francesa. Os nervos alfinetam a cabeça. O suor escorre pelas laterais do rosto. A vertigem ameaça rodopiar-me. Caminho sem dar por mim até estancar em uma esquina qualquer. Inspiro. Expiro. Cerro as pálpebras. Descerro-as. O vulto avança pela Calógeras e dobra à esquerda.

Atravesso a rua com o vento e levanto a poeira da Presidente Wilson. O homem de barba, casaca e pince-nez entra em um palacete amarelado. Um, dois, três, quatro colunas e, finalmente, tenho-o diante de mim – tão nítido, quanto inerte. Machado de Assis acolhe minha reverência e, sem dizer uma só palavra, faz-me sentir salvo.

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